Resenha: O Conto da Aia

EM Literatura · 28 mai 2016 · Permalink

O Conto da Aia

“Um livro escrito por uma mulher”, pedia o Desafio Literário. Logo esse primeiro item resultou em um dos melhores livros que já li. Inquietante, perturbador e genial, O Conto da Aia é uma distopia escrita em 1985 pela canadense Margaret Atwood. A história se encaixa perfeitamente nas atuais discussões feministas e nas críticas políticas decorrentes da ameaça conservadora.

“Estranho lembrar como costumávamos pensar, como se tudo estivesse disponível para nós, como se não houvesse quaisquer contingências, quaisquer limites; como se fôssemos livres para moldar e remoldar para sempre os perímetros sempre em expansão de nossas vidas.”

Não é um livro fácil de ler. Demorei capítulos para engatar de vez. A narrativa é pesada, fragmentada e não segue uma estrutura linear. Estamos à mercê do fluxo de lembranças da personagem principal, a aia Offred. Entre nós, podemos iniciar assim: em um dia, todas as mulheres dos Estados Unidos perdem o direito sobre suas contas bancárias e são demitidas de seus trabalhos. Elas passam a responder aos homens mais próximos com os quais têm ligações familiares ou contratuais. Está sendo fundada a república teocrática de Gilead.

A sociedade é dividida em castas. Submissas, as mulheres recebem papeis completamente pré-estabelecidos: esposas, economoesposas, aias, martas, tias. Como a taxa de fecundidade está afetada e as esposas, ponto mais alto da estratificação social feminina, em sua maioria são estéreis, as aias tornam-se responsáveis pela reprodução.

Hospedadas temporariamente nas casas de abastados, recebem cuidados especiais para que engravidem; em rituais opressores. Não possuem qualquer domínio sobre suas vidas – vigiadas, precisam se abster de suas próprias personalidades. São objetos. Objetos de culto, delicados, negados do prazer. Seus nomes são códigos. Suas identidades são criadas por homens.

“Espero. Eu me acalmo e me componho. Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo.”

Todos esses aspectos só são revelados aos poucos pelos pensamentos de Offred, que viveu a transição governamental. Ela descreve seu cotidiano e das demais pessoas da casa e da região em que se encontra, perpassando a vida de outrora. Offred percebe as falhas do sistema, relembra seus tempos de internato educacional e sofre a saudade do marido e da filha que perdeu ao tentar fugir desse destino.

O Conto da Aia é uma crítica ao patriarcalismo, uma crítica tão atual que chega a ser assustadora. A submissão completa é proposta como a salvação para os problemas que enfrentamos hoje. Em Gilead, anulam abertamente as mulheres argumentando que estão protegendo-as. Calam suas vozes para que não destoem do discurso que sustenta o sistema. É a distopia mais uma vez indo além da realidade para nos dar a chance de percebermos o que se tornou costumeiro.

O Conto da Aia

“Ele tem alguma coisa que não temos, tem a palavra. Como a desperdiçamos, um dia.”

Não mais.

Um não-post

EM Vamos conversar · 21 abr 2016 · Permalink

Assistindo

Saíram vinte posts e não saiu nenhum. É o resumo do que tem acontecido nos últimos tempos por aqui. São muitos os rascunhos não finalizados, muitos os livros interrompidos, os episódios em pausa, os filmes pela metade. Tenho vivido um desespero tão grande por fazer muitas coisas que não consigo fazer nada. Escrevo este texto com pressa e doída porque metade de mim está me puxando assustadoramente para o kindle ali na cama. Quando chegar lá… Quem sabe? Tem aquela segunda temporada toda pela frente. Será que o resgate de pontos finalmente foi computado? Concentrar-me tem sido impossível. Ainda nem decidi o almoço. Nada tem sido legal o suficiente para sugar toda a minha atenção. Eu podia visitar alguma exposição no feriado. E como é que eu acabei deixando o blog em hiatus sem perceber? Tenho que marcar um otorrino, mas será que atualizaram o instagram? Podia aproveitar para riscar uns filmes da lista de to watch. Se eu tomar um chá e prender o cabelo talvez termine um post. Eu preciso fazer terapia. Isso não é nem a ponta do iceberg. Como foi que eu perdi o controle sobre mim assim?

Manual de sobrevivência na metrópole #1

EM Vamos conversar · 29 mar 2016 · Permalink

Entardecer em São Paulo

Você com certeza já leu no manual de sobrevivência do universo que deve manter o celular sempre carregado ao máximo. Mas, se você gosta de viver perigosamente – ou simplesmente já percebeu que essa meta é impossível -, aqui está uma regra menos exigente que poderá te salvar na metrópole: a qualquer mínimo sinal de chuva coloque o celular no carregador. De preferência, na tomada, porque você estará enfrentando uma corrida contra o tempo. E lembre-se de manter uma margem de segurança observando o início dos trovões, você não quer um curto-circuito. Eu acho.

Como é sabido, a rede elétrica de São Paulo é feita de papel. A qualquer gota d’água, você ficará sem luz. E qualquer um que apresente uma atitude blasé após este acontecimento estará denunciando uma óbvia falta de conhecimento sobre a vida paulistana. A energia em São Paulo não cai, ela despenca. São horas de puro tédio em que apenas um celular e um pacote de velas poderão te ajudar.

Este é o momento em que você vai descobrir que aquele carregador portátil da 25 de março era um roubo e em que o seu notebook apresentará síndromes seríssimas de mau humor. Para evitar ser despedido, guarde um pouquinho da bateria para o despertador. E, da próxima vez que as nuvens carregadas começarem a aparecer, lembre-se de que eu avisei.