9 motivos pelos quais eu decidi ir na Parada LGBT

EM Sem categoria · 31 maio 2016 · Permalink

Parada Gay de São Paulo

1. Para que nenhum I tenha que dizer chorando em uma varanda que é gay e não tem ideia do que os amigos vão pensar;
2. Para que R nunca mais cogite vetar aquele vídeo porque a família dele ainda não sabe;
3. Para que U não tenha que posar com garotas ao lado quando na verdade queria posar com X;
4. Para que L não precise confessar que somos um dos poucos grupos de amigos em que ele pode ser exatamente como é;
5. Para que C não seja vítima de piadas porque ela gosta de homens e mulheres;
6. Para que L2 nunca mais seja perseguido na rua;
7. Para que K possa deixar a privacidade de todos os posts incríveis dela como Público;
8. Para que F, S, E, R e G possam se comportar como quiserem sem que ninguém questione a orientação sexual deles (afinal, que diferença faz???);
9. Para que eu nunca, nunca mais precise pensar por que meus amigos sofrem tantas injustiças. Para que todos sejam fortes como eles e para que eles permaneçam fortes – principalmente os que ainda estão em silêncio. Para que qualquer um tenha o direito de ser o que quiser, como quiser, e a amar ou se divertir com quem quiser. Por um mundo em que não exista nenhum “mas” depois de “Não tenho preconceito”. (E por um pouquinho mais de cor também, claro!!)

Resenha: O Conto da Aia

EM Literatura · 28 maio 2016 · Permalink

O Conto da Aia

“Um livro escrito por uma mulher”, pedia o Desafio Literário. Logo esse primeiro item resultou em um dos melhores livros que já li. Inquietante, perturbador e genial, O Conto da Aia é uma distopia escrita em 1985 pela canadense Margaret Atwood. A história se encaixa perfeitamente nas atuais discussões feministas e nas críticas políticas decorrentes da ameaça conservadora.

“Estranho lembrar como costumávamos pensar, como se tudo estivesse disponível para nós, como se não houvesse quaisquer contingências, quaisquer limites; como se fôssemos livres para moldar e remoldar para sempre os perímetros sempre em expansão de nossas vidas.”

Não é um livro fácil de ler. Demorei capítulos para engatar de vez. A narrativa é pesada, fragmentada e não segue uma estrutura linear. Estamos à mercê do fluxo de lembranças da personagem principal, a aia Offred. Entre nós, podemos iniciar assim: em um dia, todas as mulheres dos Estados Unidos perdem o direito sobre suas contas bancárias e são demitidas de seus trabalhos. Elas passam a responder aos homens mais próximos com os quais têm ligações familiares ou contratuais. Está sendo fundada a república teocrática de Gilead.

A sociedade é dividida em castas. Submissas, as mulheres recebem papeis completamente pré-estabelecidos: esposas, economoesposas, aias, martas, tias. Como a taxa de fecundidade está afetada e as esposas, ponto mais alto da estratificação social feminina, em sua maioria são estéreis, as aias tornam-se responsáveis pela reprodução.

Hospedadas temporariamente nas casas de abastados, recebem cuidados especiais para que engravidem; em rituais opressores. Não possuem qualquer domínio sobre suas vidas – vigiadas, precisam se abster de suas próprias personalidades. São objetos. Objetos de culto, delicados, negados do prazer. Seus nomes são códigos. Suas identidades são criadas por homens.

“Espero. Eu me acalmo e me componho. Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo.”

Todos esses aspectos só são revelados aos poucos pelos pensamentos de Offred, que viveu a transição governamental. Ela descreve seu cotidiano e das demais pessoas da casa e da região em que se encontra, perpassando a vida de outrora. Offred percebe as falhas do sistema, relembra seus tempos de internato educacional e sofre a saudade do marido e da filha que perdeu ao tentar fugir desse destino.

O Conto da Aia é uma crítica ao patriarcalismo, uma crítica tão atual que chega a ser assustadora. A submissão completa é proposta como a salvação para os problemas que enfrentamos hoje. Em Gilead, anulam abertamente as mulheres argumentando que estão protegendo-as. Calam suas vozes para que não destoem do discurso que sustenta o sistema. É a distopia mais uma vez indo além da realidade para nos dar a chance de percebermos o que se tornou costumeiro.

Havia lugares por onde não se queria andar, precauções que se tomava, que tinham a ver com trancas em janelas e portas, fechar as cortinas, deixar luzes acesas. Essas coisas que fazia eram como orações; você as fazia e esperava que elas a salvassem. E na maioria das vezes salvavam. Ou alguma coisa salvava; você sabia pelo fato de ainda estar viva.

“Ele tem alguma coisa que não temos, tem a palavra. Como a desperdiçamos, um dia.”

Não mais.