1º Manifesto Misturista

EM Poética · 01 dez 2014 · Permalink

(de 2005)
Ontem a gente viu o presepício
Nos convidando a fundar a Pratocimudade
Mas, derrepentemente, a gente virou Misturista.

Mistura tudo!
A gente mistura conceito com parte
E mistura a arte – que é o que é engraçado –
A gente faz crônica pra tecer comentário.
(e, no fim do mês, o saldo da energia te engole)

A gente mistura o que a gente nem tem
Mistura fé com dinheiro
pandeiro com alaúde
E a gente mistura ginga pra dizer ser brasileiro

A gente misturou idioma
e agora cobra copyright
(E há a mistura gringa pra dizer que é homem)

A gente mistura cor pra pintar o cabelo
E também mistura roupa pra criar tribo
eU gRITO: a minha tribo é tupi-guarani!

Agora a gente mistura inglês – e desde quando não misturou? –
E suspira globalização
Já inventaram até aldeia global
Ah,
Mas nem se anime, porque não cabe todo mundo.

A gente diz que quer melhorar tudo
mas a gente somos agente da passiva
A gente olha o erro e fica calado
(senão o ofendido te xinga de mal-amado!

e desde quando não se é hoje em dia?)

A gente usa fotografia como se usasse chinelo
pouca qualidade, muito excreto
Discreto, discreto, surge um herói aqui e ali
midiático.

Talibã católico já se vê hoje em dia
Não há nada que choque
Nem há nada que rime
Poesia é mais necessidade de vazar
sentimento
tormento
ou medo

Fim-do-mês não tem garantia
Salário de carteira é um baixo assinado
(e inversamente proporcional ao meu itinerário)

Pretendo deMonstrar a mistura
de todos os sonetos e técnicas
“não há mais poesia
mas há artes poéticas”

Artista de novela das seis não é herói pontual
A gente só escreve novela
(pra ver se me passa no jornal nacional)

A gente mistura escola – literária ou não –
Mistura escória e mistura perfeição
Música é o que bem há no mundo
Há muita criação, pouca difusão
Há muita parabólica pra pouco pão

Mas eis o que quero dizer:
– Foi-se o reinados dos modernistas
Contemporâneo é nome feio
Agora sou misturista.

Faço minhas rimas quando tenho vontade
e chovem subliminares nas nossas criações
(Há quem perDa tempo tentando descobrir)

– Não nascem mais manuéis Bandeiras!
– Nem mesmo carlos drummonds…
– Não nascem mais Machados de assis!
Dizem os pessimistas

A cada canto escondido
Há um envergonhado poeta
Que só quando mistura dinheiro
Têm reconhecida a arte que excreta.
Estão todos os bons sem serem notados
– sob o manto da individualidade –

Eles misturam economia e sincretismo
Eles misturam aprendizado com vestibular
Eles fazem antropofagia com carne de soja.

Poeta do capitalismo só fala de amor
Apocalipse poético foi o que alguém profetizou

Há muito já quebraram-se ligações com o passado
Há de chegar o dia que quebrem-se as do presente

Ao contar páginas de livros
não há nem sistema binário
Hoje poesia é movida
pelo seu saldo bancário

Prostitutos todos os poetas atuais
Quebremos o quebranto das letras:
Quero a arte por paixão!
a arte new face
a arte que critique, resgate
passado, futuro e até o dadá
Façamos a arte do gosto
Não arte do que vão nos pagar.