Resenha: Perto do Coração Selvagem

EM Literatura · 15 jun 2016 · Permalink

Perto do Coração Selvagem

Decidi ler Clarice Lispector porque precisava que alguém me dissesse as coisas que eu sabia que só ela era capaz de dizer. Perto do Coração Selvagem é seu romance de estreia, um prelúdio de toda a obra da autora. Publicado em 1943, destacava-se dos padrões narrativos predominantes, e foi considerado revolucionário. É um romance psicológico, introspectivo e fragmentado. Bem, é Clarice. A história é conduzida pelo curso da consciência da protagonista, Joana, cuja vida é exposta, em primeira e em terceira pessoa, desde a infância até à fase adulta.

“E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?”

Inquisitiva desde menina, Joana convive com o talento de questionar todos os aspectos do mundo. Perde os pais cedo e passa a viver sob a tutela da tia, que vê nela uma víbora. Mandada para um colégio interno, revela-se uma jovem dura, que encontra conselhos em diálogos com um professor casado. Mais tarde, casa-se com Otávio, que a trai com a ex-noiva. Um terceiro homem, desconhecido até o fim, é seu último alento relatado.

Perto do Coração Selvagem é extremamente subjetivo, combinou com o momento intimista no qual eu estava. Ajudou-me a processar meus próprios sentimentos, como se estivesse conversando com um amigo muito próximo sobre profundezas; aquilo que não podemos contar aos tantos otávios das nossas vidas.

“A Otávio só poderia dizer as palavras imprescindíveis, como se ele fosse um deus com pressa.”

Mas não é um livro de todo compreensível. Em diversos momentos, me perdi na história e segui à revelia. Clarice pede intervalos para descanso. Pesa a mente não apenas por sua fragmentação, mas também porque incumbe perguntas que saem das páginas para incrustar-se em nós. Pedimos folga do livro como quem gostaria de pedir folga da vida.

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

Agradeço a Clarice, mas acho que (novamente) demorarei a voltar a lê-la.

Resenha: O Conto da Aia

EM Literatura · 28 maio 2016 · Permalink

O Conto da Aia

“Um livro escrito por uma mulher”, pedia o Desafio Literário. Logo esse primeiro item resultou em um dos melhores livros que já li. Inquietante, perturbador e genial, O Conto da Aia é uma distopia escrita em 1985 pela canadense Margaret Atwood. A história se encaixa perfeitamente nas atuais discussões feministas e nas críticas políticas decorrentes da ameaça conservadora.

“Estranho lembrar como costumávamos pensar, como se tudo estivesse disponível para nós, como se não houvesse quaisquer contingências, quaisquer limites; como se fôssemos livres para moldar e remoldar para sempre os perímetros sempre em expansão de nossas vidas.”

Não é um livro fácil de ler. Demorei capítulos para engatar de vez. A narrativa é pesada, fragmentada e não segue uma estrutura linear. Estamos à mercê do fluxo de lembranças da personagem principal, a aia Offred. Entre nós, podemos iniciar assim: em um dia, todas as mulheres dos Estados Unidos perdem o direito sobre suas contas bancárias e são demitidas de seus trabalhos. Elas passam a responder aos homens mais próximos com os quais têm ligações familiares ou contratuais. Está sendo fundada a república teocrática de Gilead.

A sociedade é dividida em castas. Submissas, as mulheres recebem papeis completamente pré-estabelecidos: esposas, economoesposas, aias, martas, tias. Como a taxa de fecundidade está afetada e as esposas, ponto mais alto da estratificação social feminina, em sua maioria são estéreis, as aias tornam-se responsáveis pela reprodução.

Hospedadas temporariamente nas casas de abastados, recebem cuidados especiais para que engravidem; em rituais opressores. Não possuem qualquer domínio sobre suas vidas – vigiadas, precisam se abster de suas próprias personalidades. São objetos. Objetos de culto, delicados, negados do prazer. Seus nomes são códigos. Suas identidades são criadas por homens.

“Espero. Eu me acalmo e me componho. Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo.”

Todos esses aspectos só são revelados aos poucos pelos pensamentos de Offred, que viveu a transição governamental. Ela descreve seu cotidiano e das demais pessoas da casa e da região em que se encontra, perpassando a vida de outrora. Offred percebe as falhas do sistema, relembra seus tempos de internato educacional e sofre a saudade do marido e da filha que perdeu ao tentar fugir desse destino.

O Conto da Aia é uma crítica ao patriarcalismo, uma crítica tão atual que chega a ser assustadora. A submissão completa é proposta como a salvação para os problemas que enfrentamos hoje. Em Gilead, anulam abertamente as mulheres argumentando que estão protegendo-as. Calam suas vozes para que não destoem do discurso que sustenta o sistema. É a distopia mais uma vez indo além da realidade para nos dar a chance de percebermos o que se tornou costumeiro.

Havia lugares por onde não se queria andar, precauções que se tomava, que tinham a ver com trancas em janelas e portas, fechar as cortinas, deixar luzes acesas. Essas coisas que fazia eram como orações; você as fazia e esperava que elas a salvassem. E na maioria das vezes salvavam. Ou alguma coisa salvava; você sabia pelo fato de ainda estar viva.

“Ele tem alguma coisa que não temos, tem a palavra. Como a desperdiçamos, um dia.”

Não mais.

Desafios literários para cumprir ou começar em 2016

EM Literatura · 11 jan 2016 · Permalink

Desafio Literário 2016

Uma das minhas metas para este ano é ler mais. Por isso, decidi que, além de ler o que desse vontade no dia, tentaria também cumprir um desafio literário, uma maneira divertida de estimular a leitura fora do nosso lugar comum. Essa aí é a minha lista! Fiz uma adaptação a partir da que encontrei no blog da Annie e montei meus itens, para serem seguidos na ordem que der vontade. Que tal tentar também? :) Minha ideia é compartilhar resenhas de cada um dos livros que forem sendo riscados aí. Vem comigo!

Quer outras ideias?

Não curtiu muito o meu desafio? Aqui vão outros que encontrei enquanto pesquisava. Todos são divertidos e valem a tentativa. Lembre-se: o importante é ler – seguindo listas ou não! :D

Momentum Saga
Total de livros: 12

A Lady Sybylla é uma das minhas blogueiras favoritas e criou uma lista com um livro por mês. Aqui as ideias são simples como “Um livro para ler em um dia”, “Publicado antes de você nascer” e “Com menos de 150 páginas”. Superprático! :)

Volta ao mundo
Total de livros: 12

O objetivo é passear por diversas culturas lendo livros publicados em diferentes países a cada mês. O roteiro proposto segue um caminho pelo mapa-múndi, começando pela Argentina, em janeiro. O Pausa para um Café e o Universo dos Leitores começaram algo semelhante em agosto, com direito a indicações de autores.

Devolva meu Livro
Total de livros: 25

Metas mais básicas como “Um livro com só uma palavra no título” se misturam a outras menos objetivas como “Que tenha um unicórnio”. Quando li “Um livro com uma raposa e uma rosa” me senti desafiada a tentar achar outro que não seja O Pequeno Príncipe. Será que existe?

Livros e escritos & Além do Livro
Total de livros: 50

Um salto no nível de dificuldade! São 50 livros em um ano, quase um por semana (o máximo que eu já consegui foi 42 :/). Porém as escolhas são bem genéricas: livro de fantasia, de humor, contos, terror, etc.

Soul Geek
Total de livros: 53

Pode tratar de ler um por semana com um bônus nas férias! O Soul Geek convida a cumprir 53 títulos, incluindo temas divertidos como “Um livro baseado em um jogo”, “Com vampiros” e “Que vai virar filme em 2016”.

Livros que todo mundo precisa ler
Total de livros: 100

O List Challenges tem um monte de desafios de leitura – além de outros, que vão desde filmes a viagens. Lá você pode fazer testes marcando quantos objetivos já cumpriu e conferir seu score no ranking geral! É viciante. Um dos desafios propostos é esta lista de livros que todos devem ler, publicada originalmente no Business Insider e selecionada por ninguém menos do que a comunidade do Goodreads, a principal rede social sobre leitura do mundo.

Ficção científica e fantasia
Total de livros: 100

Esse é um Top 100 que encontrei há uns anos e uso como checklist para a vida. É uma escolha dos principais livros de ficção científica e fantasia feita por votação popular no NPR Books. Pretendo um dia terminar de ler todos! :) O List Challenges tem a versão interativa dela também.

EM Literatura · 27 jul 2015 · Permalink

Por Del Santana

Uma vez eu estava falando sobre a questão de gênero e um homem me perguntou por que eu me via como uma mulher e não como um ser humano. É o tipo de pergunta que funciona para silenciar a experiência específica de uma pessoa. Lógico que sou um ser humano, mas há questões particulares que acontecem comigo no mundo porque sou mulher.

A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

Chimamanda Ngozi Adichie

Trecho de Sejamos todos feministas, um livro curtinho, mas instigante. Ele é uma adaptação de um discurso feito no TEDxEuston e tem versão em e-book gratuita, da Companhia das Letras. As fotos são de Del. :)

O clique de 1 bilhão de dólares:
o Instagram e um brasileiro

EM Literatura · 25 jul 2015 · Permalink

Tem um brasileiro por trás do Instagram. Mike Krieger, cofundador do aplicativo, é paulistano e se mudou para a Califórnia para fazer faculdade. Foi em uma festa do Mayfield Fellows Program, programa extracurricular da Universidade Stanford, que conheceu seu sócio, Kevin Systrom. Os dois ganharam juntos a fama mundial.

Mike foi convocado por Kevin para desenvolver, inicialmente, uma rede baseada em geolocalização, com ares de cópia do Foursquare. Seu nome seria Burbn e já tinha conquistado o apoio de investidores. A dupla começou a trabalhar no site até decidir seguir para um novo rumo, transformando-o em um aplicativo dedicado ao compartilhamento de fotos, lançado em outubro de 2010.

O Instagram deslanchou rápido. Alcançou mais de 1 milhão de usuários em dois meses – uma velocidade de crescimento sem precedentes. Como resultado, menos de dois anos depois, em 2012, foi vendido pela bolada de 1 bilhão de dólares para o gigante Facebook. E esse pode não ter sido um negócio tão bom assim – o WhatsApp, por exemplo, foi comprado por 16 bilhões em 2014!

A história, como de costume, teve intrigas. Entre elas, com o Twitter, que disputou o Instagram, e, diz-se, até esteve disposto a cobrir a oferta de Zuckerberg. A venda do aplicativo para o Facebook chegou a ficar empacada por quatro meses na justiça por suspeita de infligir as regulamentações antitruste. A negociação rendeu o desafeto de Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter, que era investidor e um dos gurus de Mike e Kevin.

O livro

Em linhas gerais, essa é a história que Filipe Vilicic destrincha em O clique de 1 bilhão de dólares, lançado pela Intrínseca. Ele narra a vida do brasileiro cofundador desde antes do Vale do Silício, quando ainda era Michel – garoto de origem abastada, que estudou em colégios frequentados pela elite paulista -, até sua fama, como Mike. Além disso, problematiza as relações entre os titãs e os impérios da rede, perpassando por temas como o machismo nas grandes empresas e outras questões éticas.

Particularmente, engatei o gosto pelo livro somente após os primeiros capítulos. A narrativa começa com o crescimento de Mike e passa quase uma adoração, cansativa, da sua figura. Depois, dá espaço para os fatos históricos do desenvolvimento do Instagram e sua venda, fluindo com mais naturalidade. A leitura é fácil e leve. Indico!

Mais sobre o assunto:
Timeline da história do Instagram até 2014
Da fundação à venda em 15 fotos
A coluna de Filipe Vilicic no blog da Intrínseca

Resenha: Admirável Mundo Novo

EM Literatura · 26 mar 2015 · Permalink

Existem livros que todos devem ler ao menos uma vez na vida. Admirável Mundo Novo é um deles. Um dos fatos mais surpreendentes no romance de Aldous Huxley é que, como acontece com outros grandes clássicos, suas histórias e predições por vezes parecem pertencer a um futuro alcançável e próximo; ao mesmo tempo em que podem representar uma metáfora do presente.

A história, publicada em 1931, é futurística, distópica e carregada de uma reflexão crítica sobre o destino da humanidade. Sob a máxima “Comunidade, Identidade, Estabilidade” encontramos uma sociedade onde o fordismo revigorou-se até um ponto extremo. Henry Ford (1863-1947) é considerado um messias, reverenciado por toda a população civilizada. Com mais exatidão, Huxley propunha que a sociedade chegaria a esse patamar no século VII “depois de Ford” – como conta o calendário do Novo Mundo.

Fazendo referência à Matrix podemos também dizer que “existem campos sem fim onde os humanos não nascem mais, são cultivados”. Os campos, no entanto, são os laboratórios do D.I.C. (Centro de Incubação e Condicionamento), onde humanos são criados em proveta e, muitas vezes, clonados em grande número. O Estado é responsável pela educação das crianças e a Família foi abolida – assim como a religião, a monogamia, o pudor e a senilidade. Desde fetos até morrerem todos são condicionados para agirem de acordo com sua posição em um funcional sistema de castas.

Revoltante? Não para os civilizados de Huxley. O ponto-chave dessa sociedade é que todos seus homens e mulheres são completamente felizes.

E é aí – disse sentenciosamente o Diretor, à guisa de contribuição ao que estava a ser dito – que está o segredo da felicidade e da virtude: gostar daquilo que se é obrigado a fazer. Tal é o fim de todo o condicionamento: fazer as pessoas apreciarem o destino social a que não podem escapar.
(HUXLEY, 1931, p. 12)

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