Ouvi numa série #1

EM Música, TV e Cinema · 26 jul 2016 · Permalink

Starbucks e bokeh

“Não indague, talvez nunca saibamos, Leucónoe, o que os deuses planejam para você e eu. Deixe que os caldeus ponderem sobre a sentença das estrelas. De expectativas, a vida é curta. Mesmo enquanto falamos, o tempo, odioso, corre uma milha. Não confie no galho de amanhã para ter frutos, pegue o que tem agora.”

A fala do rei Ecbert na terceira temporada de Vikings é uma versão do famoso trecho das Odes (I, 11.8) de Horácio. Foi desse pedaço que saiu o célebre Carpe Diem. :)

Resenha: Perto do Coração Selvagem

EM Literatura · 15 jun 2016 · Permalink

Perto do Coração Selvagem

Decidi ler Clarice Lispector porque precisava que alguém me dissesse as coisas que eu sabia que só ela era capaz de dizer. Perto do Coração Selvagem é seu romance de estreia, um prelúdio de toda a obra da autora. Publicado em 1943, destacava-se dos padrões narrativos predominantes, e foi considerado revolucionário. É um romance psicológico, introspectivo e fragmentado. Bem, é Clarice. A história é conduzida pelo curso da consciência da protagonista, Joana, cuja vida é exposta, em primeira e em terceira pessoa, desde a infância até à fase adulta.

“E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?”

Inquisitiva desde menina, Joana convive com o talento de questionar todos os aspectos do mundo. Perde os pais cedo e passa a viver sob a tutela da tia, que vê nela uma víbora. Mandada para um colégio interno, revela-se uma jovem dura, que encontra conselhos em diálogos com um professor casado. Mais tarde, casa-se com Otávio, que a trai com a ex-noiva. Um terceiro homem, desconhecido até o fim, é seu último alento relatado.

Perto do Coração Selvagem é extremamente subjetivo, combinou com o momento intimista no qual eu estava. Ajudou-me a processar meus próprios sentimentos, como se estivesse conversando com um amigo muito próximo sobre profundezas; aquilo que não podemos contar aos tantos otávios das nossas vidas.

“A Otávio só poderia dizer as palavras imprescindíveis, como se ele fosse um deus com pressa.”

Mas não é um livro de todo compreensível. Em diversos momentos, me perdi na história e segui à revelia. Clarice pede intervalos para descanso. Pesa a mente não apenas por sua fragmentação, mas também porque incumbe perguntas que saem das páginas para incrustar-se em nós. Pedimos folga do livro como quem gostaria de pedir folga da vida.

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

Agradeço a Clarice, mas acho que (novamente) demorarei a voltar a lê-la.

Resenha: O Conto da Aia

EM Literatura · 28 maio 2016 · Permalink

O Conto da Aia

“Um livro escrito por uma mulher”, pedia o Desafio Literário. Logo esse primeiro item resultou em um dos melhores livros que já li. Inquietante, perturbador e genial, O Conto da Aia é uma distopia escrita em 1985 pela canadense Margaret Atwood. A história se encaixa perfeitamente nas atuais discussões feministas e nas críticas políticas decorrentes da ameaça conservadora.

“Estranho lembrar como costumávamos pensar, como se tudo estivesse disponível para nós, como se não houvesse quaisquer contingências, quaisquer limites; como se fôssemos livres para moldar e remoldar para sempre os perímetros sempre em expansão de nossas vidas.”

Não é um livro fácil de ler. Demorei capítulos para engatar de vez. A narrativa é pesada, fragmentada e não segue uma estrutura linear. Estamos à mercê do fluxo de lembranças da personagem principal, a aia Offred. Entre nós, podemos iniciar assim: em um dia, todas as mulheres dos Estados Unidos perdem o direito sobre suas contas bancárias e são demitidas de seus trabalhos. Elas passam a responder aos homens mais próximos com os quais têm ligações familiares ou contratuais. Está sendo fundada a república teocrática de Gilead.

A sociedade é dividida em castas. Submissas, as mulheres recebem papeis completamente pré-estabelecidos: esposas, economoesposas, aias, martas, tias. Como a taxa de fecundidade está afetada e as esposas, ponto mais alto da estratificação social feminina, em sua maioria são estéreis, as aias tornam-se responsáveis pela reprodução.

Hospedadas temporariamente nas casas de abastados, recebem cuidados especiais para que engravidem; em rituais opressores. Não possuem qualquer domínio sobre suas vidas – vigiadas, precisam se abster de suas próprias personalidades. São objetos. Objetos de culto, delicados, negados do prazer. Seus nomes são códigos. Suas identidades são criadas por homens.

“Espero. Eu me acalmo e me componho. Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo.”

Todos esses aspectos só são revelados aos poucos pelos pensamentos de Offred, que viveu a transição governamental. Ela descreve seu cotidiano e das demais pessoas da casa e da região em que se encontra, perpassando a vida de outrora. Offred percebe as falhas do sistema, relembra seus tempos de internato educacional e sofre a saudade do marido e da filha que perdeu ao tentar fugir desse destino.

O Conto da Aia é uma crítica ao patriarcalismo, uma crítica tão atual que chega a ser assustadora. A submissão completa é proposta como a salvação para os problemas que enfrentamos hoje. Em Gilead, anulam abertamente as mulheres argumentando que estão protegendo-as. Calam suas vozes para que não destoem do discurso que sustenta o sistema. É a distopia mais uma vez indo além da realidade para nos dar a chance de percebermos o que se tornou costumeiro.

Havia lugares por onde não se queria andar, precauções que se tomava, que tinham a ver com trancas em janelas e portas, fechar as cortinas, deixar luzes acesas. Essas coisas que fazia eram como orações; você as fazia e esperava que elas a salvassem. E na maioria das vezes salvavam. Ou alguma coisa salvava; você sabia pelo fato de ainda estar viva.

“Ele tem alguma coisa que não temos, tem a palavra. Como a desperdiçamos, um dia.”

Não mais.

O perdão diário – pelo fim dele

EM Literatura · 08 mar 2016 · Permalink

Casa das Rosas

“Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo no futuro, e tiver chegado até aqui, por favor, lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil de resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Talvez nada disso seja a respeito de controle. Talvez não seja realmente sobre quem pode possuir quem, quem pode fazer o que com quem e sair impune, mesmo que seja até levar à morte. Talvez não seja a respeito de quem pode se sentar e quem tem de se ajoelhar ou ficar de pé ou se deitar, de pernas abertas arreganhadas. Talvez seja sobre quem pode fazer o que com quem e ser perdoado por isso. Nunca me diga que isso dá no mesmo.”

Margaret Atwood @ O conto da Aia
(Um dos melhores livros que li na vida.)

Nós, as pessoas normais

EM Poética · 24 jan 2016 · Permalink

Oca, Parque do Ibirapuera

As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas.

Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.

Vivíamos nas lacunas entre as matérias.

Margaret Atwood @ O Conto da Aia